Desde há dois anos, a Rádio Comunitária Campeche vem enfrentando pesados reveses. Primeiro foi a perda do estúdio. O terreno onde estava, com uso em comodato por mais de 20 anos, foi colocado à venda pelo Sinergia. Tivemos de ver o estúdio, feito pelas mãos da comunidade, ir ao chão. Com a derrubada do estúdio começou uma batalha para garantir novo espaço onde fosse possível colocar a antena. Reuniões na prefeitura, na SPU, conversas, um incessante vai-e-vem. Sem a antena, a rádio perdeu várias oportunidades criadas pelo governo federal, com editais para as comunitárias, que ajudariam muito na manutenção.
Sem o estúdio, para não ficar de todo muda, a rádio conseguiu um espaço no Sindicato dos Trabalhadores da Justiça Federal (Sintrajusc), onde foram montados os equipamentos e desde ali, seguiu transmitindo na internet. Mas, sem um ambiente próprio, no qual pudesse receber a comunidade, a rádio foi ficando um pouco desconectados da vida mesma. Afinal, a força maior sempre foi o contato, a presença, a rádio aberta para o bairro. Ainda assim, a comunitária seguiu com a programação musical e um único programa ao vivo, o “Campo de Peixe”, todos os sábados pela manhã, na tentativa de manter os vínculos com a cidade e com a comunidade.
Ainda no ano passado a rádio foi acionada na Justiça pelo ECAD, exigindo o pagamento mensal de direitos autorais. As comunitárias vêm numa luta de anos para ficar isentas deste pagamento já que não são empresas, não visam lucro, não vendem produtos. Mas, depois de longa batalha, a justiça decidiu que isso não importa. Que os direitos são devidos e devem ser pagos. De nada valeu mostrar ao juiz as nossas finanças, a realidade de uma emissora comunitária que arrecada por mês apenas o suficiente para pagar luz, água e telefone. Nesse cenário, incluir um valor mensal para o ECAD seria praticamente impossível. Mesmo assim, não teve choro, perdemos a ação. O resultado foi a condenação que resulta no pagamento de uma multa bem salgada, mais o valor do pagamento do advogado do ECAD e, se quisermos continuar transmitindo, o pagamento da mensalidade ao ECAD. Isso significa – incluindo todas as despesas – um valor de 900 reais que, para uma rádio que vive apenas das contribuições dos sócios, é verdadeiramente uma montanha a ser superada. Além do mais, se levarmos em conta a manutenção dos computadores – sempre com problemas por conta da maresia – que exige frequentes campanhas para conseguirmos pagar, o drama se aprofunda.
Não bastasse tudo isso, agora estamos esperando que o governo federal aprove a renovação da outorga, num processo que tem se arrastado por mais de um ano. É incrível como empresas como a Globo, a Band e outras desse porte têm suas outorgas liberadas em dias, enquanto as comunitárias precisam amargar um calvário burocrático que não tem fim.
Com todos esses problemas foi chamada uma assembleia geral, no dia 16 de maio, para que os sócios pudessem tomar pé da situação e decidir o destino da rádio. O cenário é difícil. Estamos a dois anos buscando um lugar onde reconstruir a rádio. Uma batalha dura, pois o bairro vive um momento de grande valorização fundiária. A terra aqui é ouro.
A situação da rádio se põe complicada e por conta disso, uma das propostas que veio para a assembleia foi a do fechamento. Uma proposta difícil, se considerarmos os 27 anos de vida e de resistência desta pequena valente, que já enfrentou muitos vendavais. É certo que nunca tantos ao mesmo tempo. Fechar significaria cerrar as portas para uma comunidade que, sim, mudou muito, mas que ainda precisa de um espaço onde possa expressar a voz das lutas necessárias que continuam acontecendo. Então, depois de muito debate, os sócios que acorreram à assembleia decidiram que é preciso fazer um esforço para manter a rádio funcionando. E foram apresentadas propostas de ações para garantir que a comunitária siga irradiando: campanhas de arrecadação para o pagamento da multa, aumento da anuidade, busca de parceria no comércio local. Uma batalha.
Também foi estipulado um prazo até o final deste ano para ver se todos esses nós se desatam. O ponto central é torcer para que o Ministério das Comunicações libere a renovação da outorga. Há uma pequena luz no fim do túnel no que diz respeito a um terreno onde replantar nossa rádio. Tudo está por se definir até 2027.
Como podem notar pelo relato, o tempo é ruim, mas tem aberturas de sol. O trabalho comunitário é assim, sempre cheio de percalços… Mas, há lutadores, há garra, há trabalho.
Por agora temos um grupo organizado que insiste em manter a rádio no ar. Todos os esforços estão sendo feitos. Já atravessamos alguns desertos. Este pode ser só mais um. Numa conjuntura em que as redes sociais e as big techs estão engolindo nossas almas, manter a comunitária é um compromisso ético.
Vamos conseguir…
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