Por: Diálogos do Sul
Em entrevista, Everton Souza alerta: “Nesse momento, a solidariedade a Cuba será uma solidariedade a nós mesmos”
“Será uma experiência de revolução energética, inclusive de como essa transição pode ocorrer no mundo”, afirma Everton Souza, representante do Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba, sobre a campanha de arrecadação que visa enviar painéis solares à ilha caribenha. Em entrevista à Diálogos do Sul Global, o assistente social e servidor público detalha a iniciativa que mobiliza organizações e a sociedade e, mais do que uma resposta emergencial, representa uma alternativa concreta e de longo prazo ao bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos.
Segundo Souza, a proposta é que, à medida que os equipamentos forem chegando e sendo instalados, especialmente em hospitais, escolas e setores essenciais, Cuba reduza sua dependência de combustíveis fósseis e fortaleça sua soberania energética. “A ideia é cobrir a maior parte do país, que ficará cada vez menos dependente do combustível fóssil”, afirma, destacando que a abundância de sol na ilha favorece esse processo.
O Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba integra a Rede Continental Latino-Americana e Caribenha de Solidariedade com Cuba e reúne, em mais de 20 estados brasileiros, associações culturais José Martí — o grande líder da independência cubana que hoje inspira movimentos solidários no mundo. Em parceria com a Câmara Empresarial Brasil-Cuba, a entidade busca arrecadar recursos para a compra de 1.000 painéis solares, que serão enviados progressivamente, conforme o volume de doações.
A Câmara Empresarial Brasil-Cuba desempenha papel central na operação. Everton explica que a entidade possui experiência no comércio com a nação caribenha e garante a logística de aquisição, transporte e transparência dos recursos. “É um espaço que tem expertise de comércio com Cuba, nos ajudando na compra, nos fretes, nos containers”, afirma. Ele ressalta ainda que os valores arrecadados são divulgados periodicamente, reforçando a confiança na campanha.
As contribuições podem ser feitas por meio de depósito — Banco do Brasil, Agência 4770-8, conta 13844-4, Câmara Empresarial Brasil-Cuba — ou via PIX — chave 34.131.511/0001-64.
Cuba enfrenta uma grave crise energética agravada pelo bloqueio econômico e pelas sanções impostas por Washington, que dificultam o acesso a combustíveis e insumos básicos. Nesse contexto, Everton destaca: “Hoje, a principal campanha é a de painéis solares, pois pode resolver um problema estrutural de Cuba a longo prazo.”
Ajudar a ilha, no entanto, não é apenas um gesto humanitário: é parte da luta pelos interesses dos povos latino-americanos. O entrevistado ressalta: “Nesse momento, a solidariedade a Cuba será uma solidariedade a nós mesmos”. Nesse sentido, alerta que o avanço do imperialismo sobre um país abre precedentes para toda a região. “Se deixarmos o governo dos Estados Unidos avançar em um, avançará em todos.”
Everton também chama atenção para a necessidade de articulação internacional. Segundo ele, o enfrentamento ao bloqueio energético exige mais do que iniciativas isoladas. “Seria válido uma coalizão de países enviar petróleo a Cuba, porque sanções a vários países de uma vez é um grande prejuízo ao próprio governo que está dando a sanção”, explica. Nesse contexto, o porta-voz critica o silêncio de blocos como o Brics e defende que o Brasil assuma um papel de liderança na construção de alternativas coletivas.
Questionado sobre possíveis barreiras à campanha, Souza afirma que, no caso dos painéis solares, não há impedimentos diretos. “Não haverá resistência porque ainda não há um bloqueio militar dos Estados Unidos”, afirma. Segundo ele, o bloqueio atual se dá por meio de sanções econômicas e pressões comerciais, especialmente no setor energético. Portanto, os equipamentos devem chegar ao destino. “Quem enviar ajuda material, solidária, não vai encontrar dificuldades. Os painéis vão chegar.”
Como o Brasil não produz todos os componentes necessários, os equipamentos serão adquiridos em países como China, Vietnã e México. “Vamos atrás dos preços melhores e enviaremos os painéis para Cuba conforme o dinheiro das doações chegar”, detalha.
Além da campanha de painéis solares, há outras iniciativas de solidariedade em curso, como o envio de medicamentos organizado pelo MST e o Instituto Cultivar. Everton aponta a importância dessas ações, salientando que as organizações se articulam com foco em campanhas específicas de doação — todas, fundamentais diante da gravidade da situação.
Por fim, o militante faz um apelo contundente à população brasileira, conectando a solidariedade internacional à luta por melhores condições de vida na própria região:
Se a América Latina não se unir, não contribuir com os países que estão em dificuldades, o risco de o governo dos Estados Unidos nos levar a uma situação extrema, de dificuldades econômicas, sociais e piora das nossas condições de vida, é muito grande.
E conclui: “Lutar por Cuba é criar um muro de resistência.”
*Publicado originalmente em Diálogos do Sul