Pele preta é alvo

A cidade do Rio de Janeiro é pródiga em exemplos sobre o genocídio do povo negro e pobre. Todos os dias ouvimos e vemos notícias que mostram como a vida dos jovens das comunidades empobrecidas, de periferia, pouco importam. Mas, essa não é uma realidade só lá longe, no Rio. Ela existe aqui, bem na nossa cara. Um exemplo disso é a batalha que a comunidade do Mocotó vem travando para denunciar as ações de violência e de morte praticadas pela polícia em Florianópolis e, principalmente ali na comunidade. Os alvos, como sempre são os jovens negros.

Na última sexta-feira, educadores da Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Morro do Mocotó, juntamente com outros do  Instituto Padre Wilson viveram mais uma dessas ações violentas enquanto estavam distribuindo cestas básicas na comunidade. O que não surpreende é o fato de apenas o jovem negro do grupo ter sido agredido e humilhado. O padre Wilson Groh conversou com a gente no Programa Campo de Peixe sobre o acontecido e sobre toda essa situação na cidade.

 

 

NOTA DE REPÚDIO À AÇÃO VIOLENTA DA POLÍCIA CIVIL DO ESTADO DE SANTA CATARINA EM FLORIANÓPOLIS OCORRIDO DIA 22 DE MAIO DE 2020. 

A diretoria da Associação de Amigos da Casa da Criança e do Adolescente do Morro do Mocotó (ACAM), em sintonia com o presidente do Instituto Vilson Groh {IVG), torna público seu repúdio à ação da Polícia Civil, que utilizou, nesta manhã de 22 de maio de 2020, o uso de violência e força excessiva contra um dos nossos funcionários, em um momento em que a Instituição realizava entregas de cestas básicas e outros itens para manutenção das famílias na comunidade – Estado ausente para a garantia dos direitos da população e presente na prática coercitiva.

Considerando a atual conjuntura do país, a Instituição vem realizando suporte para mais de 100 famílias cadastradas atualmente, provendo alimentação , materiais de uso de higiene e limpeza e orientando a população local. Deste modo, a ACAM manifesta continuamente seu compromisso de defesa aos direitos sociais, tentando diminuir o sofrimento da comunidade pela ausência do Estado através das políticas públicas e tentando evitar que essa ausência de direitos promova ações de violência que possam impactar na vida da comunidade e da cidade de maneira geral.

Lamentavelmente hoje um dos trabalhadores da ACAM, devidamente uniformizado, desempenhando suas funções de trabalho, empatia e solidariedade para com as famílias mais vulneráveis, enquanto carregava caixas de alimentos orgânicos que estavam sendo distribuídos, foi abordado juntamente com demais trabalhadores da nossa equipe, por 6 policiais civis, que solicitaram que levantasse a camiseta. Frente à recusa do funcionário, que argumentou estar em exercício laboral, foi agredido verbal e fisicamente diante de seus colegas. A única característica deste para os demais trabalhadores que ali estavam foi a cor de pele – um trabalhador negro. Não havia nenhum comportamento que o enquadrasse em uma situação que necessitava de uma abordagem policial – e nada justifica a violência do Estado como ocorreu.

Repudiamos este episódio de violência gratuita da Polícia Civil, que demonstra desrespeito pela Instituição, abuso de autoridade e uma postura racista que contribui para o ódio e para os ideais há muito praticados de genocídio da população jovem, pobre e negra das nossas periferias. Expressamos, para além do repúdio, nosso apoio e solidariedade neste momento ao profissional e a todos os moradores de comunidades que  vivem essa violência na pele em seu dia a dia. Finalizamos lembrando que a violência se opõe à ética, à moral e à educação e deve ser repudiada por todos, em todas as suas formas.

 

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