Palestinos de Florianópolis voltam os olhos para a terra natal

Khader Othman: A região, sob ataque sistemático de Israel, é ainda mais vulnerável ao coronavírus

O ano era 1977. Florianópolis começava seu movimento de se abrir para o mundo e também iniciava, bem devagar, uma onda de migração. Gente vinda do interior do estado e também de outros países. Foi naquele ano que chegou à capital o palestino Khader Othman, um dos tantos que fora obrigado a abandonar sua terra, invadida pelo estado sionista de Israel, criado de maneira artificial em 1948. A vinda para o Brasil foi em 1967, mas a primeira parada foi em Tubarão onde já havia palestinos desde 1959. A decisão de vir para a capital, dez anos depois, acabou incentivando outros companheiros, dispostos a iniciar nova vida, longe do terror imposto por Israel.

Hoje, Florianópolis tem uma comunidade de mais de 60 palestinos.  A primeira geração, que chegou no rastro de Khader, começou a vida no comércio e quem anda pelas ruas do centro da cidade seguramente encontrará um palestino, pois muitas das lojas da região estão sob o comando dessas famílias. “A primeira ideia foi trabalhar com o comércio – lojas e restaurantes -, pois era a forma mais rápida de garantir o sustento das famílias”, lembra Khader. Já a segunda geração, formada pelos filhos dos imigrantes, brasileiros natos, tem se expandido por outros caminhos, com profissionais em todas as áreas. “A cidade nos recebeu com carinho e nós somos muito gratos”.

Agora, com todo esse desastre mundial provocado pelo novo vírus, que vem cobrando vidas em todo o mundo, os palestinos que vivem em Florianópolis voltam seus olhos e corações para a terra natal. Lá, um território ocupado e sistematicamente massacrado, vivem seus familiares, e a perspectiva de mais um desastre é iminente. Os últimos informes contam que já são 115 infectados na região da Cisjordânia e dois na Faixa de Gaza, além de quatro presos políticos nos cárceres de Israel. Como o território está sob invasão, a fragilidade da saúde das pessoas é imensa, até porque o sistema de saúde palestino tem de lidar diuturnamente com a violência que é praticada por Israel contra a população. E como a Palestina está bloqueada a possibilidade de ajuda também é bastante difícil. Não bastasse isso existem mais de cinco milhões de palestinos em campos de refugiados no Oriente Médio, também em condições precárias de saúde. “Falo com minha família todos os dias. Por enquanto estão bem, mas como podemos saber o que vai acontecer?”, diz Khader.

Hoje, 30 de março, os palestinos em todo mundo lembram o Dia da Terra Palestina, instituído há 44 anos, justamente para sempre trazer à memória o drama desse povo, que tem sido roubado e violado desde 1948. Nesse dia, em 1976, houve uma greve geral nas cidades árabes de Israel para denunciar o processo de colonização forçada realizada por Israel no território palestino, derrubando casas e entregando terras palestinas aos colonos israelenses.

Atualmente existem mais de cinco mil prisioneiros políticos nos cárceres israelenses, muitos deles são crianças. São um milhão e meio de pessoas confinadas na Faixa de Gaza, há 13 anos sob bloqueio criminoso e, cotidianamente, homens, mulheres, crianças e idosos são detidos por horas nos checkpoints israelenses.

Hoje, várias entidades ligadas à luta pela libertação da Palestina, lançaram um manifesto que expõe o drama da invasão do território e o desafio com o coronavírus. “A vida do povo palestino é uma vida de resistência, desde ao acordar até o deitar, são lutas em defesa de seu território do mar Mediterrâneo até o rio Jordão, de suas tradições, de sua cultura milenar, de sua capital Jerusalém, por liberdade, enfim, por uma vida com direitos, justiça e paz! E, atualmente, por saúde e por sobrevivência frente à pandemia do COVID-19. Mais uma luta a ser travada, uma vez que o sistema de saúde e os hospitais na Palestina estão submetidos à violência do Estado Sionista de Israel”, dizem.

Em conversa com Ali Abur, que vive no território palestino, há poucos quilômetros de Jerusalém, ele afirma que os palestinos estão em isolamento social e por enquanto o governo está conseguindo manejar bem os casos de infecção, mas há um problema grave com palestinos que trabalham no lado de Israel que contraem o vírus e são mandados embora imediatamente. O governo de Israel, inclusive, faz com eles passem por outros caminhos que não os pontos de checagem, onde há um controle rigoroso por parte do governo palestino, o que pode fazer o vírus se espalhar. “Para os israelenses, o palestino bom é o palestino morto e há muita maldade. Infectar as comunidades é mais uma ação desse estado terrorista. Todo cuidado é pouco. Por enquanto estamos enfrentando bem”, diz Ali, que viveu 40 anos no Brasil e agora está de volta ao seu chão.

Ainda assim, em todo mundo, entidades que lutam pela Palestina Livre apontam algumas ações necessárias nesse momento.

– Permissão de circulação dos médicos e equipes de saúde (Organizações de Saúde nacionais e internacionais);

– Acesso a todos os materiais de higiene, sabão, álcool gel, luvas, máscaras e remédios;

– Imediata libertação dos prisioneiros políticos palestinos, pois os cárceres são insalubres.

-Imediato fim do bloqueio em Gaza! Amplo acesso de alimentos, remédios, assistência e equipes de saúde.

Para Khader Othman, apesar de a situação ainda estar sob controle lá na Palestina não resta dúvida de que a população está sob perigo, não apenas agora nesse momento de epidemia, mas todos os dias, na luta contra a invasão e a violência do estado sionista de Israel. “Aqui, nossa comunidade está protegida, estamos cumprindo o isolamento, mas lá, nossos familiares estão todos os dias em risco, seja pelo vírus, seja pelas bombas e balas de Israel. Resistimos e pedimos a solidariedade mundial”.

Ouça entrevista de Ali Abur

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