20 anos de Rádio Campeche

Na Rádio Campeche, com Bira Saldanha, que era o presidente da Amocam em 1998

Nesse novembro nossa rádio comunitária celebra 20 anos de existência, desde o dia em que foi ao ar pela primeira vez, ainda na casa do jornalista Lúcio Haeser. Nesse texto a jornalista Elaine Tavares, que é também diretora da rádio nessa gestão que vai até o ano que vem, descreve o trabalho que vem sendo feito desde então:

A Rádio Comunitária como espaço de transformação: alternativas contra hegemônicas desde o Sul

Segundo o Ministério das Comunicações existem hoje 9.973 emissoras licenciadas para executar serviços de radiodifusão nas áreas educativa e comercial. Essas são rádios que tem alta frequência e podem ser sintonizadas de qualquer lugar nas cidades onde estão. Somadas a elas existem outras 4.377 rádios comunitárias outorgadas, que funcionam como espaço de informação nos bairros ou comunidades. Estas estão limitadas a uma frequência de 25 watts podendo alcançar um raio de apenas um quilômetro. São emissoras sem fins lucrativos, destinadas a promover a soberania comunicacional comunitária.

Mas, na verdade, desse número de comunitárias, bem poucas são as que verdadeiramente cumprem com essa proposta de ser espaço de organização e informação comunitária. Grande número delas é confessional (pertencem a igrejas) ou de propriedade de políticos locais ou grupos de poder, funcionando como se fossem rádios comerciais, veiculando propaganda, contratando trabalhadores e fazendo comunicação “normótica”, ou seja, servindo ao sistema e aos grupos de dominação.

Na cidade de Florianópolis, que conforma a ilha de Santa Catarina e uma parte continental, com cerca de 470 mil habitantes, existe uma pequena rádio comunitária que foge a regra da maioria. É a Rádio Comunitária Campeche, fixada no bairro Campeche, ao sul da ilha, numa comunidade de 25 mil moradores. Ao contrário de boa parte das comunitárias que nascem para organizar a vida do bairro, a Rádio Campeche fez caminho inverso, ela é o resultado de uma intensa e profunda organização comunitária iniciada no começo dos anos 1980 durante a luta por um Plano Diretor. Naqueles dias havia um forte movimento de migração do oeste/norte/sul do estado no rumo da capital e os moradores compreenderam que sem uma organização capilar, unificada e comunitária, o crescimento desordenado engoliria a forma de vida que o bairro já havia escolhido para si. Enquanto no norte da ilha já imperava a lógica do turismo de resultados, o sul insistia em viver de forma simples, com qualidade de vida, com cuidados com o lixo, o saneamento e principalmente com planejamento. Foi aí que começaram a surgir as propostas para um plano que desenhasse o bairro tal como a comunidade queria.

Foi um momento lindo para o bairro, que se juntou para construir um plano que mantivesse a comunidade fora da rota da especulação e da destruição ambiental que vinha sendo promovida pelos governantes. Assim, vários movimentos que já existiam em luta pelo saneamento, cuidado com o lixo, com o meio-ambiente, começaram a traçar mapas e planos para garantir o Campeche como um bairro jardim, com casas baixas, e sem construções na beira da praia. A luta foi intensa e abriu caminho para o debate de um Plano Diretor para toda a cidade e não apenas para o bairro do Campeche. Foram anos de muita mobilização popular.

E foi assim que começou a ser gestada a rádio comunitária, a partir de um movimento forte que já se consolidava no bairro. Ela aparecia para ser o espaço aglutinador da comunicação comunitária. Então, em 1998 começaram as tratativas para que a rádio fosse formalizada e legalizada.  Nos primeiros tempos as transmissões eram esporádicas, conforme as necessidades da luta, e depois o processo foi se consolidando, com a chegada de mais gente e com as transmissões sendo mais regulares.

O primeiro espaço de vida da Rádio Campeche foi a casa do jornalista Lúcio Haeser, que se dispôs a ceder o lugar para a transmissão. Enquanto isso, a luta seguia no bairro e em Brasília, buscando a legalização da rádio, que chegou no ano de 2005. Com tudo certo em Brasília, a rádio já podia funcionar sem medo de ser invadida pela Anatel, no dial 104.9 FM.

Então, por conta de uma parceria com o Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis que garantiu um terreno, a sede foi construída em mutirão. Todo mundo metendo a mão na massa. Espaço pequeno, mas suficiente para irradiar a voz do bairro. E foi em 2006 que começou o primeiro programa ao vivo da Rádio Campeche: o Campo de Peixe, no ar até hoje. O programa tinha – e tem – o propósito de trazer as lutas da comunidade, os temas da cidade, do estado e da América Latina. Informação e formação. Notícia e debate. O jornalismo como forma de conhecimento, trazendo ao ouvinte aquela abordagem que ele não encontra na TV ou no jornal convencional.

Pois não demorou muito e logo outros programas ao vivo começaram a surgir. Havia toda uma demanda reprimida por um espaço onde expressar a voz e a informação. Programa de cultura, de juventude, de música, de informação comunitária, de ecologia, esportes. Tudo dentro da lógica de que só pode ser programador quem mora no bairro. E assim tem sido até hoje. A Rádio é comunitária de fato, propaga as vozes do bairro, é feita por moradores, por quem vive e constrói a luta no Campeche. E é por trazer uma informação diferenciada e contextualizada que a rádio tem sido a ponta de lança na construção do Plano Diretor Participativo e na luta que se trava por uma cidade boa de morar, que garanta a todos e todas dignidade e direitos. Praticamente todos os programas dão espaço para esse debate que define o povo do Campeche. Uma gente que luta pelo bem viver no bairro e na cidade.

Na rádio comunitária não tem propaganda. O que rola são os apoios culturais. O comércio local apoia com uma quantia fixa, e a rádio anuncia o apoio. Nada de anúncio de produtos ou coisa assim. É parceria cultural e política, e aí política no sentido bom, de ação conjunta e viva na comunidade.

Assim, a cada dia que passa, a rádio vai fortalecendo, apresentando programas que fogem do lugar comum das rádios comerciais. No dial da Comunitária, agora 98.3 FM, podem ser escutadas as vozes dos pescadores, das rendeiras, dos ambulantes da praia, dos moradores, dos comerciantes, dos contadores de história, das figuras históricas do bairro, os cineastas locais, os cantores, os artesãos, enfim, qualquer um que tenha algo a dizer. E, além dos programas que apresentam a melhor música local, nacional e do mundo (fora do circuito comercial), há os programas de interesse comunitário. A vaga de emprego, os horários dos médicos e dentistas no posto de saúde, as reuniões do Plano Diretor. Então, ao ligar na frequência 98.3 FM os moradores encontram a boa música do interior, encontram poesia e discussão cultural, o jornalismo, a música produzida no bairro e na cidade, sabem das propostas alternativas para o meio-ambiente, ouvem sobre saúde. É um mosaico de temas e sons, tudo pensado e feito com o amor de quem mora e vive no Campeche.

A Rádio também frequentemente realiza projetos em parceria com os alunos das escolas locais, apresentando oficinas de comunicação e trazendo os estudantes para dentro da Rádio, onde também podem expressar suas demandas.

Esse projeto comunitário, que se sustenta na força da luta comunitária, viceja na Travessa das Chagas Pires, uma pequena ruela do bairro Campeche, e se faz dentro de uma singela casinha erguida com a ajuda de todos. Ali, entre fios, microfones, e outros tantos cacarecos que vão se acumulando dos balaios comunitários, circula a vida da comunidade. Chegam os artistas, os escritores, os líderes comunitários, os moradores, enfim, chega a força viva desse bairro que aprendeu na luta que para ser um lugar de bom-viver é preciso união e cooperação.

A Rádio Campeche tem sido, desde que nasceu, o coração do bairro e ele bate, compassado, na batida dos tambores, do cavaco, do violão e da informação. Por vezes a força fraqueja, quando os movimentos se fragilizam ou arrefecem diante da força brutal do capital, como na derrota do Plano Diretor, esmagado pela vontade de um prefeito aliado aos poderosos da cidade. Mas, quando tudo parece parado nos movimentos do bairro, a rádio resiste e insiste no chamado à luta, funcionando aí como lenha para a fogueira das batalhas. Por vezes enfrenta turbulências, como a incompreensão de novos moradores que querem transformar a rádio em associação recreativa ou fonte de recursos. Aí, o debate se faz, e as coisas se esclarecem, com a comunidade entendendo o papel da rádio, que é o de ser espaço da difusão das vozes em luta.

A comunitária é uma gota no oceano, já que entendemos que o inimigo a ser enfrentado é o capitalismo e que ele não será vencido apenas com nossa ação radiofônica. O processo é muito mais profundo e o campo de luta muito maior. Mas, dentro do sistema, vamos resistindo e apontando o caminho para o mundo novo que queremos construir, que de alguma forma já temos na nossa proposta de um bairro que viva em equilíbrio com a natureza e que caminhe solidário com as gentes que o conformam. Irradiando as vozes em luta na cidade, no país, na América Latina e no mundo vamos construindo coletivamente a teia que conformará o socialismo e, depois, o comunismo. Na força do comum, o bairro caminha e na Rádio Campeche, essa ideia igualmente anda, potencializada pelas ondas, no ar, e no éter através do sítio www.radiocampeche.com.br , onde pode ser escutada em qualquer lugar.

Uma pequena ação, perdida no meio do Atlântico, mas que se sustenta na força comunitária, produz conhecimento e promove a rebelião.

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